segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Descobri educação no ventilador






Você só percebe que a tal lei de Murphy existe quando o ar central do local que você trabalha 9 horas diárias resolve pifar, exatamente naquelas semanas esturricantes do verão. A história aconteceu em uma das clínicas médicas que trabalhei e justamente eu, que detesto aquele frio ártico das cavernas onde os médicos costumam ficar, não queria abrir mão daquele conforto, principalmente naquele dia em que a temperatura, às 11 horas da manhã, já batia os 33ºC.
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Pra piorar, além do prédio ser todo de vidro, usávamos um uniforme de tecido sintético, medonho, que dá arrepios só de lembrar.
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A princípio, a administração do prédio avisou que aquele infortuno era somente por um dia.
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Foi difícil, pois além do calor, da roupa que não nos deixava transpirar, o sol batendo naquele vidro, precisávamos aturar os pacientes chatos, os filhos dos paciente que eram ainda mais chatos, os acompanhantes dos pacientes chatos pra caralho pra caramba. Todos os chatos olhavam para nós e, cretinamente, soltavam a criativa pergunta: vocês não vão ligar o ar condicionado?
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Lógico que a minha vontade era responder, “não queridos, adoramos trabalhar no inferno, com os corpos suadinhos em horário comercial”, mas desistia, afinal eu era a que tinha que dar moral e manter a linha, e claro, era só o "calor" dos meus pensamentos, jamais teria coragem.
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Enfim, diante daquela batalha suor + paciência + cansaço, vencemos aquele dia com louvor, lembro-me que parecia um zumbi no final do dia, mas acreditei que na manhã seguinte o ar estaria funcionando.
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Mas não.... A coisa durou mais de uma semana, foi horrível. Além da minha própria estafa, ver a equipe se desmanchando em suor e cansaço era pavoroso, me sentia impotente e logo pedi uma reunião de urgência com a dona da clínica. Ela estava junto com o pai e resolveu (pra variar) me atender diante dele.
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Depois volto na cena, agora preciso falar sobre ele: um senhor meio intrometido, mas que ficava ali diariamente, montou um pequeno escritório no final do andar, pra se sentir útil, mas nada fazia. Todavia, era ele quem mantinha todo o luxo daquele lugar, bancava as loucuras da filha, mesmo sabendo que não teria retorno do dinheiro investido nos supérfluos que a madame queria implementar no espaço.
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Voltando a cena, pedi para que ela liberasse as funcionárias daquele uniforme xexelento até o ar condicionado voltar a funcionar, vale lembrar que a manutenção do prédio não tinha previsão de quando isso aconteceria e meu pedido não era descabível. Não estava solicitando uma liberação para que todas fizessem da clínica um Sesc Itaquera, queria apenas que todas fossem liberadas do tecido sintético e, com bom senso, usassem uma malha mais confortável diante daquele situação. Mal terminei de falar e o velho disparou:
- Essas meninas têm ar condicionado em casa? Isso é um luxo que se tem aqui na clínica, então elas conseguem ficar sem.
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Lembro-me que perdi a fala, logo eu, tão rápida no gatilho, não desferi uma só palavra, olhei para a funcionária que estava ao meu lado e percebi que a mesma (que também era geniosa como eu) havia se calado, mas não porque perdeu a tal “reação” como aconteceu comigo, foram frações de segundos, mas percebi que ela havia emudecido consciente e sabiamente.
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Após se retirarem da sala olhei para funcionária e perguntei se ela também ficou muda por decepção, ela, com toda nobreza do mundo disse: - Não, eu não posso ensinar alguma coisa à quem jamais entenderá o que eu digo. Não posso perder meu precioso tempo com quem não vale a pena.
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Ali, sedenta, aprendi com aquela mulher, que não havia como ensinar uma pessoa preconceituosa como aquela.  Ele desmereceu toda a equipe. O mais engraçado, todas mulheres, assim como a filha que ele tanto ama.
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Aquela amiga, que ali sofria o mesmo calor, me ensinou que não podemos lapidar metal.
Tentei não chocar o resto da equipe, demos um jeito para conseguir ventilação naquele “inferno” durante toda a semana.
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Um ano depois pedi minhas contas, desencantei com aquela cena, embora o salário fosse maravilhoso, me consumia a vontade de retrucar aquela resposta todo santo dia.
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Meu desejo era gritar na orelha peluda daquele senhor, mas não o fiz, pois, mesmo sem ar condicionado na minha casa (como muitos mortais), fui criada com educação e respeito pelo próximo.
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O calor daquele verão me fez descobrir que alguns humanos podem ferver na irracionalidade, mas eu terei (sempre) de manter friamente minha paciência, sorrir e tentar não perder meu tempo precioso com quem não pode ou não quer aprender mais nada nesta vida.

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